A apneia obstrutiva do sono é a interrupção repetida da respiração durante o sono, causada pelo colapso das vias aéreas superiores. Cada pausa reduz temporariamente o oxigênio no sangue e ativa o sistema nervoso simpático como resposta de alerta — um mecanismo que, repetido centenas de vezes por noite, gera inflamação sistêmica, disfunção dos vasos sanguíneos e ativação hormonal do estresse, com impacto direto sobre o coração.
O que a apneia faz com o coração
A apneia do sono está associada a maior risco de hipertensão — inclusive a forma resistente, que não responde bem aos medicamentos habituais — de fibrilação atrial, a arritmia mais associada à condição, e de insuficiência cardíaca, cuja evolução tende a ser pior quando a apneia não é tratada. Também eleva o risco de infarto e AVC, principalmente em casos moderados a graves não tratados.
O impacto real do tratamento: dados recentes, reunindo mais de 1 milhão de pacientes com apneia do sono, mostraram que o uso do CPAP (o aparelho que mantém a via aérea aberta durante o sono) reduziu em 37% a mortalidade geral e em 55% a mortalidade cardiovascular. Entre pacientes com boa adesão ao tratamento (uso de pelo menos 4 horas por noite), a redução de eventos cardiovasculares maiores chegou a 31%.
Sinais de alerta
Ronco alto e frequente, pausas respiratórias observadas por quem dorme ao lado, sonolência excessiva durante o dia, sono não reparador mesmo após noites "completas", dor de cabeça ao acordar e dificuldade de concentração são sinais que sugerem apneia e justificam investigação — especialmente combinados com hipertensão difícil de controlar ou obesidade.
Diagnóstico e tratamento
O exame padrão para diagnóstico é a polissonografia, que registra parâmetros respiratórios, cardíacos e neurológicos durante o sono, definindo o grau de gravidade da apneia. O tratamento principal é o CPAP, mas também inclui perda de peso (quando há sobrepeso ou obesidade associada), posicionamento durante o sono, aparelhos intraorais em casos selecionados e, eventualmente, cirurgia em situações específicas.
Perguntas frequentes sobre apneia do sono e coração
Toda pessoa que ronca tem apneia?
Não. O ronco é comum e pode existir sem apneia. Mas quem tem apneia costuma roncar — por isso o ronco intenso e associado a pausas respiratórias observadas é um sinal de alerta importante para investigar.
Emagrecer resolve a apneia do sono?
Em muitos casos ajuda bastante, principalmente quando o excesso de peso é o principal fator, mas nem sempre resolve completamente — a avaliação com polissonografia após a perda de peso ajuda a confirmar se o CPAP ainda é necessário.
Preciso usar o CPAP todas as noites para sempre?
Na maioria dos casos de apneia moderada a grave, sim — o benefício cardiovascular observado nos estudos está diretamente ligado ao uso regular e consistente, e não apenas ocasional.
Apneia do sono não tratada pode piorar a pressão alta que já uso remédio?
Sim — é uma das causas mais reconhecidas de hipertensão de difícil controle, mesmo com o uso correto da medicação. Tratar a apneia frequentemente melhora o controle da pressão nesses casos.
— Dr. Murilo Camargo