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Aterosclerose: entenda a doença que está por trás do infarto e do AVC

Quase tudo o que tratamos em cardiologia intervencionista — isquemia, infarto, e até parte dos casos de estenose aórtica — nasce do mesmo processo silencioso: a aterosclerose. Entenda o que é e o que está, de fato, ao seu alcance para controlar.

A doença aterosclerótica (ou aterosclerose) é o acúmulo progressivo de colesterol, cálcio e células inflamatórias na parede das artérias, formando o que popularmente chamamos de "placa de gordura", conhecida cientificamente como placa aterosclerótica. Com o tempo, essa placa cresce, endurece e estreita o espaço por onde o sangue passa — reduzindo o fluxo para os órgãos que aquela artéria alimenta. Quando isso acontece nas artérias do coração, o resultado pode ser a isquemia miocárdica ou o infarto.

O ponto mais importante: a aterosclerose não é um evento único, é um processo que se desenvolve ao longo de décadas, muitas vezes sem sintoma nenhum, até o dia em que uma placa se rompe ou obstrui a artéria por completo. É exatamente por isso que controlar os fatores de risco muito antes de sentir qualquer coisa é o que realmente muda o desfecho.

Como a aterosclerose se forma

O processo começa com uma pequena agressão à camada interna da artéria (o endotélio) — causada, por exemplo, por pressão alta, açúcar elevado no sangue, substâncias do cigarro, inflamação gerada pela obesidade visceral, ou até a ausência de substâncias protetoras que o exercício físico regular ajuda a liberar. Essa lesão permite que partículas de colesterol LDL se infiltrem na parede do vaso. O corpo reage a essa invasão com uma resposta inflamatória, atraindo células de defesa que tentam "engolir" essas partículas de gordura — só que, ao fazer isso, elas próprias se transformam em parte da placa. Ao longo dos anos, cálcio se deposita nessa região, endurecendo ainda mais a artéria. O resultado final é uma artéria mais estreita, mais rígida e mais propensa a complicações.

Por que isso deve ser levado a sério

A boa notícia em meio a tudo isso: a aterosclerose é, em grande parte, uma doença de fatores modificáveis. Isso significa que boa parte do risco está nas suas mãos — e do seu médico — para controlar, e não é fruto do acaso.

Os fatores de risco que realmente importam

Infográfico mostrando a progressão da doença aterosclerótica em 6 etapas, da lesão endotelial inicial até a ruptura da placa e o infarto do miocárdio, com os fatores que aceleram o processo
Progressão da doença aterosclerótica: da lesão inicial na artéria até a ruptura da placa e o infarto.

Hipertensão arterial

A pressão alta agride constantemente a parede das artérias, sendo um dos principais gatilhos para o início e a progressão da placa aterosclerótica. Manter a pressão controlada — com mudanças de hábito e, quando necessário, medicação — é uma das intervenções isoladas mais eficazes para reduzir o risco cardiovascular.

Diabetes

O excesso de açúcar no sangue lesiona o endotélio e acelera a formação de placas, além de tornar essas placas mais instáveis e propensas a se romper. Pessoas com diabetes têm risco cardiovascular significativamente maior, o que torna o controle glicêmico rigoroso uma prioridade — não só para os rins e os olhos, mas para o coração.

Colesterol e Lipoproteína(a)

O colesterol LDL ("colesterol ruim") é a principal matéria-prima da placa aterosclerótica. Quanto mais LDL circulando, maior a infiltração na parede da artéria — por isso o controle do colesterol, seja por dieta, exercício ou medicação, é um pilar central da prevenção.

Existe também um fator de risco genético menos conhecido, mas cada vez mais relevante: a Lipoproteína(a), ou Lp(a). Ela é mais aterogênica que o LDL comum e pode elevar significativamente o risco de infarto, AVC e até de estenose aórtica — mesmo em pessoas com o colesterol "normal" nos exames de rotina. Como é determinada geneticamente e não varia muito ao longo da vida, a recomendação atual das diretrizes é dosá-la pelo menos uma vez para todo adulto, especialmente quem tem histórico familiar de doença cardiovascular precoce.

Inflamação

A aterosclerose é, na sua essência, uma doença inflamatória — não apenas um "entupimento" mecânico. Processos inflamatórios crônicos, mesmo de baixo grau, contribuem para a formação e a instabilidade da placa. É por isso que, em alguns pacientes, marcadores inflamatórios são usados como parte da avaliação de risco cardiovascular, além do colesterol.

Obesidade

O excesso de peso, principalmente a gordura concentrada na região abdominal, está associado a resistência à insulina, inflamação crônica, pressão alta e alterações no colesterol — reunindo, em uma única condição, vários dos fatores de risco já citados.

Exercício físico

Ao contrário dos fatores anteriores, a atividade física regular é um fator de proteção: melhora o perfil de colesterol, ajuda a controlar a pressão e o açúcar no sangue, reduz a inflamação e contribui diretamente para a saúde do endotélio. Não precisa ser desempenho de atleta — a American Heart Association reforça que atividade física regular é um dos pilares centrais da saúde cardiovascular.

Sono

O sono deixou de ser tratado como coadjuvante: em 2022, a American Heart Association passou a incluir a qualidade do sono como um dos oito pilares oficiais da saúde cardiovascular. Dormir muito pouco (ou muito mal) está associado a pressão alta, ganho de peso, resistência à insulina e maior inflamação — todos, engrenagens da aterosclerose. A recomendação geral é de 7 a 9 horas de sono por noite.

Estresse

O estresse crônico mantém o corpo em um estado constante de alerta hormonal, o que eleva a pressão arterial, favorece hábitos alimentares piores e dificulta o controle dos demais fatores de risco. Cuidar da saúde emocional não é "extra" — é parte real da prevenção cardiovascular.

O que fazer com essa informação

Nenhum desses fatores age sozinho — eles se somam e se reforçam. Por isso, o acompanhamento cardiológico contínuo, e não apenas um exame isolado, é o que permite identificar quais desses fatores estão mais desequilibrados no seu caso específico, e agir antes que a placa aterosclerótica avance a ponto de causar um evento como isquemia, infarto ou AVC.

Perguntas frequentes sobre doença aterosclerótica

Aterosclerose tem cura?

Não existe uma "cura" que reverta completamente a placa já formada, mas o processo pode ser estabilizado e, em parte, regredido com controle rigoroso dos fatores de risco, mudança de hábitos e, quando indicado, medicação. O objetivo principal é impedir que a placa continue crescendo ou se rompa.

A partir de que idade devo me preocupar com isso?

O processo pode começar muito antes dos primeiros sintomas, inclusive em adultos jovens. Por isso, o ideal é avaliar seu risco cardiovascular e dosar exames como o perfil lipídico e a Lipoproteína(a) já na vida adulta, independentemente de sintomas.

Se eu não tenho sintomas, ainda preciso me preocupar?

Sim. A aterosclerose costuma ser silenciosa por décadas — muitas vezes o primeiro "sintoma" é um infarto. É exatamente por isso que a prevenção e o acompanhamento antes dos sintomas são tão importantes.

Alimentação saudável sozinha é suficiente?

A alimentação é uma parte importante, mas geralmente não é suficiente sozinha, principalmente quando existe componente genético (como a Lipoproteína(a) elevada) ou múltiplos fatores de risco associados. A avaliação individualizada com um especialista define o que, no seu caso, realmente precisa de intervenção.

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